poemas nascem

۞ nasce palavra, escorre poema, jorra rio, evapora nuvem e chove sobre a terra.۞

domingo, 31 de maio de 2015

irmão do cadáver

Pessimismo
         Otimismo            
faces da mesma
moeda antiga
de valores perdidos
do mundo mesquinho
de mais-valias
              valem
                       nada-mais.

Quero
mundo livre
dessa competição babaca.
sempre dual
o Ocidente
esquece viver o um
e só há uma possibilidade
o caminho
ainda que desviado
no queijo suíço
dos descaminhos.
O desapego
nos olhos do cadáver
a falta de sentido
faz ver sentidos
profunda existência.

Somos irmãos
gente de verdade

família
humanidade.

sexta-feira, 29 de maio de 2015

artefato

pela paz
exercito
força maior
arte da guerra

manter a forma
suprir mantimentos
munição armamentos


juntar pessoas
informações
conhecimento

saber história

transparência
decodificada
por digital retina

sempre dois lados
para ir: frente ou trás

verdade que há
– hã!? –
não tombar

corrigir desvios
a  tempo


grande retorno
o caminho

cascudas ostras 
interiores em encontro
luminosa linha de dentes da paz

sinceridade
matéria do sublime
vocação de humilde
ser guerreiro

temer o mal mata
resta cair dentro
palavras atos
entendimento

brilho conjunto
hálito sorridente
desde o esôfago

onde se pudesse
haver escondido
o vestígio amargo
da doença.

quinta-feira, 28 de maio de 2015

lótus

o mundo insiste em fechar
todas saídas antes do fim.
a luz que brilha
sinais de recomeço
dissipa etérea
como veio.
tudo tão vago.
mais um dia que
não amanheço.
borbulho entre brumas
sobre a lama do pântano.
certeza do improvável
florir.

segunda-feira, 25 de maio de 2015

emaranhado



Se nos falamos, lemos, olhamos, tocamos,
nos ligamos nas muitas linhas do destino.
Pois não me lances queixas neste emaranhado,
procuro a ponta que vai dar no céu.

domingo, 24 de maio de 2015

epifania de domingo

a areia da praia está multicolorida
a grama mais verde para quem brinca
sedas reais colorem pobres na festa do divino
não há chefes, patrões ou reis
o crente se crê em passeio completo
o branco das saias rodadas gira nas giras
o couro come nos tambores
são todos sãos, todos brincantes
no dia do sagrado relax
o domingão é do boato
reunião dos irmãos
da família que há
do que dela resta
fora o silêncio dos que sofrem
a solidão no eco da televisão
no espelho do mundo anárquico
se mira um eterno dia de festa.

sábado, 23 de maio de 2015

pause



Uma pausa na metafísica,
que o tesão já incendiou o coração do poeta.

As palavras não têm mais sentido,
o sentido é a própria boca.

A língua é a língua,
o beijo, a linguagem.

Do you understand me? Beija-me.

sexta-feira, 22 de maio de 2015

vinho



A morte
faz o circo triste.

Pisadas, as uvas
resurgem em olor divino.
Brindo como baco:

sético
sátiro

santo.

quinta-feira, 21 de maio de 2015

linha vermelha


linha do equador
canal do panamá
túnel rebouças
cerca do condomínio.

faixa de gaza
linha vermelha
cerca de tijuana
mar mediterrâneo.

cidade alta e baixa
limite do gueto
na zona leste
ou em soweto.

planalto central
cidades satélites
mundo desigual
baixadas famélicas.



direitos humanos
para humanos direitos
à margem não há terapia
para nenhum de seus defeitos.

apartamento de luxo
de costas para a favela
do lado esquecido
não tem choro nem vela.

"abaixa a faixa penal! desce o pau"
sempre no pobre, no preto
para que desde cedo aprendam
a ficar para lá da linha
que separa o gueto.

quarta-feira, 20 de maio de 2015

dança d'areia


dança a areia
à música do vento
sinuosa em jatos constantes
lixando o vasto plano perfeito
perseguindo a maré vazante
gerando dunas em ondas
em vagoroso movimento itinerante
enquanto grãos ligeiros
espetam os pés a todo instante
apagando pegadas
lembrando que somos nômades
mônadas correntes escoam
pelo vazio deserto do tempo
porquanto sem fim ecoem
os uivos de novos ventos.

 

terça-feira, 19 de maio de 2015

marinha


Aves marinhas dançam ao azul vazio por sucessivos véus, sem gravidade, o ar em diferentes densidades de nuvens perpassa-lhes as penas, sopradas pelas térmicas que brotam d'areia quente, em voo livre, espreguiçam à rede da gentil brisa terral, que também lhes esculpe ondas em tubos cristalinos com a crista perfeita, planar, entre a terra, o mar e o astral, surfar com o riscar das pontas das asas, beliscando o tônus leve do salgado mar, como a pena desliza sobre o papel do poeta.
Sim, somos pássaros, improváveis, em vôos supersônicos, no sentido dos swells, pulsando por grandes ondas de revelações, ou tranquilos, pousando sobre ilhas de plásticos.
Nos fizemos profissionais do ar ao ponto de nos permitirmos amar lançando-nos à livre entrega de voar, em alongamentos quânticos, cânticos extra-românticos, uns aos outro, além-mar, estratosféricos, místicos, tântricos, yoguis da vida, esferas criando artes, artesanatos, delírios, acessando novas portas de percepção.
Tudo pode ser tão cool como um reggae jamaicano desembarcado de bravios cruzadores de mares a deitar junto às extensas e nuas costas maranhenses, ouvindo na fricção dos dedos com a pele morena, o roncar do tambor-onça. Ah, ilhas de amores, flechados por eros, somos mesmo assim, heroicos, cercado pelas águas turvas de argila azuziverde, donde não nos brilham reflexos narcísicos, mas cardumes de peixes, a festejar generosa prosperidade, sem estresse, sem tristeza de virar a cara para irmãos. até porque o sol tá quente, de rachar o cérebro, e abrir sentidos mais plenos.

segunda-feira, 18 de maio de 2015

ponto cruz

arte de avó | flor bordada na toalha | detalhes da mesa de domingo | cuidados de mariazinha | 
lembrança dos ausentes | festejo aos presentes | tempo de delicadezas | natureza morta | vivo florir

domingo, 17 de maio de 2015

luz da manhã

A boa luz
nos retorna o Caminho
e afasta não o escuro
– contraste necessário –
mas o que há obscuro
parasitas da nossa inércia.

Em boa hora
em dia propício
invoco a esta
para iluminar
a vida.

Amor (companheiros!)
filhos, crianças, adolescentes
irmãos, os dessa geração
pais e anciãos,
por todos esses
faça-se luz.

Oh, boa luz
desfaça as mazelas
desmanche os equívocos
valorize o justo,
desnude a falsa nobreza.

Branda luz,
nos dê energia para
uma grande missão.
desça-me um anjo,
eleve-nos, arcanjo,
vamos à escala seguinte
dessa existência mesquinha...

Luz da manhã,
Invoco o melhor de ti
que sejas o que já vi.

sábado, 16 de maio de 2015

margem blue

o medo
é sinal do apego
tudo pode se perder

tremer é a prova do passo
difícil andar sobre alturas
pouco chão sob o pé erguido a frente,
loucura? mais nada a perder
consigo, o essencial
a roupa do corpo
alimento da alma
e sim, o amor.

não há o que temer
lançar-se ao íntimo do ser
poeta ao mundo
ressurgir, renascer
a tragédia tem a origem
de todas as músicas
da forma que vem
no fluido devir
caminhar.

ao fundo, além
um rei bebê
toca um blues.

quem nasce negro
às margens do Mississipi,
São Francisco, Nilo, Tejo, Rio Negro
Igual ao rio
nunca se sabe o mesmo.

onde a música triste toca
a alma se reconforta na amplidão
tudo fica pequeno
nada mais a sofrer.

refino


Ofereço
e quero

o justo.

A boa máquina
devagar navega
consciência desperta
ampliando o viver.

Ideias se desenham
sem ego
simples princípios

saúde em forma
afinando conceitos
gente que dá certo.

Inovação de berço
carreira e caminho
deliro sonhos sãos
do constante brasil
que aquece o bem
e acende o belo.

.
Mais transparente sentido
não
 traço, nem rima
com minha artéria:


refinar a
prima-matéria.


sexta-feira, 15 de maio de 2015

sem terra

o cheiro molhado da terra
ativa o anterior sentido
instinto de reproduzir instintos
fazer um filho, verter um livro
plantar, colher, estar no ciclo
junto contigo, em teu úmido cio
desperta a semente, o húmus quente
enquanto o sêmen se assenta
em ocupação às propriedades da mente
e, de repente, a possibilidade
de não estares mais nem aí para mim.

quinta-feira, 14 de maio de 2015

metamorfose

Encerra-te, crisálida,
não és mais larva
em frenética busca.

Já se vislumbram
tuas magníficas asas.

Concentra, pois
a tua essência,
une teu ímpeto
à consciência.

Alimenta o sagrado feto,
o mundano afeto,
deixa fluir a roda d'água
tua brilhante luz nutrir.

Não há mais erro
e já não quero te possuir,
agora sou espelho.

Nosso próximo encontro
se dá em pleno vôo.

quarta-feira, 13 de maio de 2015

terça-feira, 12 de maio de 2015

petrificado



Vulcão de ser
humana lava
fogo de viver
encontro, o outro
mesmo magma
ventre
vento, nuvem, onda, maremoto
tesão, arte, caldeirão, erupção
expressão do caos
jorra de mim.

Viro pedra.

Contemplo as montanhas,
frias
altas
silenciosas.

(imagem: http://www.photovolcanica.com)

segunda-feira, 11 de maio de 2015

preto velho

A consciência perdura
ultrapassa porões
é levada por terreiros
em rodas de batuque
à sombra dos holofotes
se festeja negra.

Salve ela, a consciência!
Salvem as pessoas
guerreiras por condição,
que dos guetos a expandem
em música, dança, arte, palavras
ou simples sabedoria.


* Imagem: Contraponto II, de Jonilson Bruzaca (desenho a carvão sobre tábuas rústicas com com tinta acrílica, retratando o artesão Fernando Gallas, de São Luís, MA).

domingo, 10 de maio de 2015

filho da Mãe

À ela
quero realização,
não por ser filho,
mas por ser ela firme
no caminho
deixando para mim
faróis pelo carinho.

Assim somos melhores
ao mundo,
tendo Mãe,
afeto, sinceridade,
somos todos
coletividades afetivas.


Prisões terrestres
prendem só os si-prórios
filhos de chocadeira
com curtas mentiras
a si mesmos.

Por ela
me sinto
mais acolhido
à asa de uma astronave
para o plano adiante.

Humildes, nos abrimos ao pleno
percebemos alta vibração

em ouro corrente de eldorado astral.

Brasil, de fogo intenso,
a consumir
todas estas terras
de nossa Mãe.

Fujo de tal canseira
gosto das ingênuas
brincadeiras
que só filhos de bom afeto
sabem ter.

Ainda que seja pouco
com todo desastre que nos cerca
nos resta nosso sopro reto.

Vida
não há de ser
a sofrer em decadência,
aconteça o que aconteça
não há, além disso
o que temer.

Coragem é sabedoria
sabedoria, coragem
Oroboro de
fogo ancestral.

Se a vida tá cara,
peçamos um desconto...

A escola da paz é bem melhor,
o bom guerreiro detesta guerra.
Saúdo exemplo mulher
de alma guerreira.

Parti, parte de ti
desde o parto,
sempre deixo
teu seguro e quente vazio
e parto.

Crescer
permite te reconhecer
sempre uma primeira vez
meu olhar ao infinito
com as costas
em teu peito.

Só posso ser mesmo bobo
mas todo poeta é ator dessa tragédia
jogar é viver, viver, jogar.
Com teu amor,
me jogo como esquilo voador.

Sinto no ar, às costas
o vestígio do teu calor.
Eternamente grato
sou.

sábado, 9 de maio de 2015

lobos no olhar


Olhos de desejo
são lobos famintos
não cabem no instinto.

Olhos que te querem
morder-te desde os lóbulos.

Olhos que ardem em labaredas
consomem tua imagem
ainda em suas retinas.

Guardo esses olhares a sete chaves
só devem ser soltos
em terras particulares
onde o amor entre em combustão
na complementar
troca de olhares.

Lobos finalmente festejam
saem de seus egos
deixam os globos oculares
e correm as relvas da Primavera.

Hoje permanecem ali
esperam dóceis
a hora do jantar.

Mas não se devem confiar
nos selvagens lobos do olhar...

sexta-feira, 8 de maio de 2015

homem ao mar


Ora navego
em nau sem bandeira
caminho do meio,
sem eira nem beira.

Um tanto Confúcio
exercitando inteligência
e humanidade diante
do sagrado vazio.

Um tanto vazio
diante de tantos nãos,
tantos erros...
Caio no mar inteiro
errando em navio negreiro.

Um tanto tonto
buscando simples
felicidade.

quinta-feira, 7 de maio de 2015

prima matéria



Cuido em mim
de um louco.
A imagem do céu
a linguagem do abismo,
O inferno do espelho.
Hei Joe!
Isso que nos cerca
é muito pouco!


* A Joe Romano.

quarta-feira, 6 de maio de 2015

queda livre

Caio no silêncio do vazio 
não naquele que silencia. 

Ao vazio me refugio, 
mas fujo de tudo 
que me é subtraído, 
do vazio do peito partido. 

À toda negação 
digo sonoro não. 

Me lanço todo sim
ao Caos além de mim.

terça-feira, 5 de maio de 2015

dificuldade inicial

o trovão está embaixo
acima há um rio
corrente
entre densas nuvens.

revoltado,
troveja baixo
evoca o céu
enquanto, serenamente
desembaraça fios de seda
e os organiza
com a ajuda de mãos gentis.

ora, o caos
oro, além.


* baseado no hexagrama "Chen", do I Ching.

segunda-feira, 4 de maio de 2015

jogo do espelho

Você olha pra mim
e não me vê.
Sua boca fala
sem nada dizer.
Você é o outro
trás do espelho
reflexo
reverso do nexo
sexo
oposto
aposto de mim
fim.
                    
           Eu de mim
           ai de mim
           mentira
           verdade paralela
           jogo de luz
           e escuro
           um furo
           no aço
           do espelho.

domingo, 3 de maio de 2015

transparência entre nós


quebrar espelho
traz sete anos
de cegueira.

bom guerreiro
contra ele,

não disparo.

volto a mim
me curo e calo.

se me achas, fogo amigo
veja bem, sou teu espelho.


    * imagem: Le fax mirroir. René Magritte, 1929.

sábado, 2 de maio de 2015

mergulhar


A vida, essa danada!
Se é medida, não é por sentimento,
mas por centímetro, quadrada.

Por isso, a festejo desmedida,
indo além do metro ou linguagem,
que esquadrinha a caminhada!

Viver clama deixar de pensar
e dar um mergulho no mar.

Quer saber?

Só h’á mar.

sexta-feira, 1 de maio de 2015

filhos da Terra

Bem sabes a verdade que há num gato.
No humano, o bestunto a funcionar astuto
busca desejos incompatíveis com a Mãe Terra.
A terra precisa ser firme para os pés, patas e plantas.
Ulterior, é nossa Mãe.
Não à toa, nasci no dia em que passou uma estrela.
Não à toa, pessoas nascem filhos, irmãos,
e têm a si, assim, uns aos outros, o que são,
além do que querem ser ou ter.
Mais não digo, pois reconheço
a feminina Primazia.
Homens sempre meninos,
ou mesmo guerreiros homens,
não são nada além
do que tudo que os gera,
humildes e verdadeiros
filhos da Terra.