poemas nascem

۞ nasce palavra, escorre poema, jorra rio, evapora nuvem e chove sobre a terra.۞

domingo, 20 de dezembro de 2015

a força


                À Kyvia Rodrigues
                    no Poeta Oculto
                       (
Rio, 20/12/2015)

Nada está fácil
até que surge ela
a visita de um pássaro
brotar de flores na janela
perfume de jasmim
assalta sentidos
como um espírito santo
devo estar meio alto
percebê-la
sem explicá-la.
Calar. Amar. Voar.
Sim. Voam os leves.
Um átimo de encontro
e o vazio dos desencontros
tecem a rede do nosso
enpreendimento
de viver
simplesmente.
Ser mãe
amar infinito
seus meninos
com ímpeto leoa,
ainda que em
gestos sutis.
A força é amar,
seu nome: poesia.

sábado, 17 de outubro de 2015

jogo justo

Melhor o jogo
quando todos
são da luta justa
olhamos de frente
sem trapaça
mentira
covardia
deixando a sorte
fluir ao azar.

Azar não é má sorte
é leito para fluir
campo da natureza,
que desponta milagres
em sincrônica aleatoriedade.

O lance de dados
não nos ataca ou remedia,
intermedeia
a passagem
entre nós
e o futuro

se o jogo não é
de dados viciados...

Sai para lá, uruca!

Voltem às prisões terrestres
forças que desviam
o pão dos justos
abusam da boa fé.

Não me venha
de tirania
com tiro na nuca
discurso raso
ordem fora do prazo...


Sai para lá doença!
Velhos amargados pelo próprio veneno
cheguem para lá!

Saúde é melhor
que a crença

como surfe perfeito
deslizar em equilíbrio
na prancha na crista
na onda do mar.

Jesus! Iemanjá! Zen! Nirvana! Axé! Tao!

Salam shalom, paz! Amor!

Sagrada leitura
a dos olhos laicos
dos olhos puros
transparentes
ao presente
abertos
ao futuro
além do estômago:
da humanidade.

Humanistas, nossos santos,
nossos mestres, nossas leituras,

ligados ao princípio
à fagulha que faz viver
aquecer, mover, iluminar.

Galho podre
é estrume
fertiliza o pé de café
verdeja, floresce, frutifica
e se recolhe ao tempo
seca até haver início
um outro amanhecer
para ser moído e torrado
e ainda quentinho
virar cafezinho.

Uma pausa
para contemplar o horizonte

importante é dar um tempo
e sempre refletir
consigo em sinceridade
plantar e colher
ao seu tempo
recebendo no rosto

uma brisa espontânea

a água da fonte.


poesia não é
delírio lírico idílico

é empoderar
o acaso

criar caso
só se for o caso


por ora fluir

traçando
linha dourada
na hora do ocaso.


domingo, 27 de setembro de 2015

face

Eis a minha verdadeira face
dou-a a vocês, a despeito do ângulo
que favoreça minha parte na história.
História não tem parte,

a têm (a História) os que se unem
com consciência de irmãos, casais,
amigos, grupos familiares, comunidades,
um povo, humanidade, de todos os seres.
Família é até onde vai o amor.
As leis votadas por toscos mandatários do poder alheio
ou a etnografia viciada pelos donos do jogo pouco importam
pois, na hora íntima, cara a cara com o ente,
aqui já fora do Face,
não somos produtos do meio, somente.

Meio, de fato, é só o que há entre nós.
Sigo o caminho do meio, 

com meu ainda frágil amor e tímidos sonhos de vida mais inteira e plena.
Diga ao espelho: – Somos assim tão diferentes???


leve



Mostro a cara
mas ao tapa dou o verso
à maldade, o espelho
à inveja, o vazio
recuso as disputas
que dão armas
ao pior de mim.

Sim, canto o amor
ou por amor
ainda que escorra
de um coração partido
reforço do saber vivido
amar não cabe em caixa
amor é fluido.

E do canto dos poetas
pássaros, loucos, ascetas
ingênuos, velhos, crianças
surge a improvável harmonia
e o mundo dança solto e leve.

sábado, 26 de setembro de 2015

down

Sem ilusões amargas, amo demais, poema que surge por baixo das plumas, da nuvem, do fog, do que turva a visão. palavras são armadilhas, mas não as pegam a poesia e o afeto que escoam entre trevas, viventes por elas, entre a mente obscurecida pelas tristezas, frustrações e impotência consumidora de dias, mas eis que resta uma pulsão improvável de felicidade, um pássaro que canta negro de dor, no auge da noite, quando down desperta com a aura do sol em nova brasa, mais intenso que o despertar singelo e frágil de flores da primavera. À véspera do eclipse na lua cheia, ja não ouço uivos, somente a brisa terral e o encontro de mundos que conforta o humano, que ora contempla.

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

lenha

O que curto
deixa rastro
registrado junto a digitais
cpf, fundo de olho
e dna decodificado.
tudo perfeito
documentado
meu perfil de consumo
para que me consuma
ao forno
progresso mesquinho
que queima
povo pau
no brasil
que arde.



quarta-feira, 23 de setembro de 2015

rua


consciência alterada
sexo errante
desejo viajante
devaneios egóicos
encontro de Narcisos
fogo em si
queima
entre olhos tranquilos
do lago límpido
de quem resta à frente, refletida
alguma paixão própria
a ponto de haver equilíbrio
e haver algo a ver
ou mesmo cego com os pés
a tatear tatamecom a cara a tapa
socos ou afetos
riscando o ar
que ainda
nos move
os pulmões.

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

fogo falso

ratos procuram migalhas
para consumirem o trigo
que escoa do cinza
cobaias de jogos viciados
por éteres de laboratório
substâncias sintéticas
para vidas plúmbeas
brilhos, displays
de paraísos imediatos.

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

à contra-luz

Gentil luz dourada ilumina
 palavras de poeta.
Sutil natureza em evolução constante
doura silêncios gestando profundos gestos.

Dança que me percorre os pulmões
me clama, corpo-alma, à contradança.

sábado, 22 de agosto de 2015

eureka


curiosidade vivaz certeza vazia
intuição
cheiro
calor
festejar a novidade
não há erro
método científico
os gregos estão certos
a inteligência está no coração.


Foto: Juliana Hollanda D'Avila
Modelo: Mia Hollanda D'Avila.

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

gente boa

Difícil amar o diferente
Mais ainda, aceitar o que se nega.

Mas, sobre o que negamos
quem nunca se pega.
Nunca pecamos?

Tudo que caminha
vacila para o passo novo
até se lançar na direção certa.

Desconfio muito de homens de passos firmes.
Desconfio quando flagro meus pés automáticos.
Prefiro encontrar meu erro a ir de cara na parede
Sobretudo, prefiro não ser uma parede.

O passo atrás faz ver além do muro
Continuando no caminho que leva além.

Por isso, cada vez mais amo os diferentes
e tantos diferentes me amam de graça.
Logo nos reconhecemos. Ô, se não!

Alegria pura é o encontro
brincarmos ou chorarmos juntos
nos entendermos, sermos irmãos.

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

prata velha

Há 25 anos, no poder houve um caçador de marajás
caçando pequenos vícios da raia pequena
suas reservas, sua esperança.


25 antes, caçadores de comunistas já haviam assaltado a história
cassando liberdades comuns, reflexões, oposições de pensamento

25 depois, hoje, caçadores continuam lançados em suas carreiras de caça
a cata da próxima raposa, caçando qualquer futuro ou dialética.

Mas passemos do fato à festa.

Há 25 exatos anos a palavra poética,
frango de granja, não dorme
fervilha, numa ilha
vitamina C
para não nos resfriarmos
nesse inverno quente
brindado neste dia com chuva de gelo

a poesia nem sempre
é eloqüente

corta seca palavra fria
sem dó dos fiéis.

Viva o Cep 20 Mil!

Salve o deslabirinto
do Minotauro demolidor
de convicções pífias
salve a banda de pífanos
as epifanias dos reisados
reza rasa a lenda viva ou morta
pois brincantes bestas decepam
qualquer objetividade mórbida.

       
Justo D’Avila  

 imagem: 
Tito Labrunie, em site do CEP 25 anos

respiração

Não há problema, só novo cinema.
O criativo e a nova república velha.

Viver sobre a terra...
boa semente, povo gente
na estação, florir


frutos, no outono do sol poente.

Hummmpfff, a vida passou num suspiro
embora cada segundo
inspiro e expiro
gerações surgem e vão
ao vão da caminhada.

Aonde vamos?

Parar
é fundamental.

Refletir
o espelho.

Pairar

Liberdade
ascende cachola.

Consciência desperta
universo onde harmonia plana
mesmo sem ser (por não ser)
plana.

Por isso
amor sim.

Festejar
cada início
cada fim
do diferente.

Adiantar primavera
para antes de Praga.

Em todo tempo
por compaixão
há tempo
de sermos

de novo
nossas crianças
e velhos.

segunda-feira, 20 de julho de 2015

pombo correio


Não falaria dos pombos
mas eles parecem querer falar comigo
a mensagem de um outro mundo
como o encontro de lados diferentes
da mesma moeda planeta terra
não com faces opostas
mas redondo
sim
deus é mãe
sobre seu reino
tudo é redondo
o grande vazio é redondo
pois se unem as nossas fraquezas
sem quinas, muito além das esquinas
eu mesmo, ora pombo, arrulho
quando não há mais barulho
quando não mais entupimos nossa vida
com tanto desvio de si
com tanto entulho
e não engulho
com esse engodo
com esse olho gordo
que nos queima ao forno
não
quero ser feliz
como um saltimbanco
um gato vira-lata
subvertendo a aristocracia
mundo que torneia mulheres aristogatas
olhos brilhantes,colares de safira, brilho na pele...
ah, o sorriso de uma menina... é algo devastador...
que percebo contente
sim, nascem princesas
sempre, ignoram preceitos
de deus pai, ou do mundo dos homens
sim, são dançarinas
em postura perfeita
saltitando em doces piruetas
me recolho
vou ver se os três pombos
mas já estão lá
e só vejo uma flor
o sol
um mundo melhor.

quinta-feira, 16 de julho de 2015

nova estação

no silêncio
passa um trem
apito sutil
do som que vai ao longe
suavemente sussurram
toneladas de aço
levando embora todo minério 
sussurram suavemente
sibila em lá maior
o atrito com o ancestral trilho
passa direto por aqui
nos sintonizando
a próxima estação.
(Foto: Antiga estação ferroviária de São Carlos, SP)

terça-feira, 14 de julho de 2015

olhos de tigre

O mal não alcança
o transparente
bate-volta no metal
do espelho
espada de anjo
ampla compaixão
força de viver
base de gato
ronronarrr do trovão.

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Rua Aquidaban

Poderia ser um nome qualquer,
mas se refere ao fim da guerra do Paraguai;
guerra de negros
sob ferros;
desta feita
alforros
Jazz
festade Los Libres
quilombo
aldeia de índios.
Ahh, sou só
mais um filho
da terra.


domingo, 12 de julho de 2015

beijinho

Sim
como se fosse
um beijinho
algo assim assintomático...
sim, tomas
rasteiras.
Sim
tomo guaraná.
hahahaha
tomo guaraná
Jesus!
o que me conduz

domingo, 28 de junho de 2015

divina palavra

A palavra divina
não é submetida
a um cartório terreno
com o poder do povo
não é subserviente
a um governo
menos ainda
a forças capitais
que investem
no desgoverno.
Todos somos
não só filhos
como matéria
sangue e todos fluidos
do que o que se pega
para Cristo.
Ora, a origem é antes
e Una
livre de quaisquer
outras formas de poder
só há um Poder
acessível com humildade
silêncio e afeto
na Consciência mais
abrangente
de cada mísera
cabeça.

terça-feira, 23 de junho de 2015

inspiração sutil


Ação
ativa ou passiva
vogal factual
fogo
fato
quando lançada
todo santo ajuda
tudo conspira
soma ou inspira
razão do absoluto
ou não.

(*poema sem a vogal "E", feito para a exposição Poesia Agora, em cartaz até 27 de setembro, no Museu da Língua Portuguesa, em SP)

sábado, 20 de junho de 2015

quinta-feira, 18 de junho de 2015

o lago

Sobre a montanha
muito antiga
ergue-se
a azul alegria.

Águas tranquilas
varridas diariamente
por ventos frios
do continente.

A límpida intuição
contrasta com o cinza
a lama, o lixo, o vício
de empreendimentos
que ignoram a natureza.

Não há disputa
mas resistência
em tudo que inspira
se une
e regenera.

O velho
livro das mutações
nos ensina:
somos vários.

Juntos
lago sobre lago
formam
o inesgotável.

quinta-feira, 11 de junho de 2015

ratoeira divina

movimentos
desejos
queijos
ratos
aves
insetos
peixes
fluxos
festas
infestações
pulsões
orgânicas
orgônicas
ancestrais
complementares
adversas
anversos
ou avessos
yin - yang
polaridade sublime
cinco cores elementares
espectros incontáveis
ampla diversidade
singular coletivo
harmônicos
verbos
ecos
sopros
profundos
origem ampla
do vazio absoluto.


( imagem: "A última ceia", de Jee Young Lee)

terça-feira, 9 de junho de 2015

flor de cemitério



Lá estou eu de novo na sarjeta

                        bom pra ver

Não sou príncipe

                        sou poeta

Meu beijo a princesa

                        não desperta

Deixa ela quieta

                        em seu caixão de pétalas

Q’eu estou vivo,

                        em meio à merda

Salve Deus as putas

                        e os companheiros de flagelo

Que meu sangue é ruim

                        para os vampiros

Minhas lágrimas são as mesmas

                        de toda a humanidade

Abra os olhos

                        melancólica nobreza

Real

                        é a consciência

O espelho que insufla o orgulho

                        reflete a decadência

Quem está triste com a vida

                        vai para o inferno!

É preciso que a fogueira arda,

                        para se entender que não há sofrer

É só começar do zero e não ter mais

                        nada a perder

Ah como são belas as flores

                        do cemitério...

sexta-feira, 5 de junho de 2015

fio



Tudo de novo
agora já é velho.
Pinto no ovo,
galo no espelho.

Canto à madruga
céu vermelho.
Sinto no peito
desassossego.

Ando na linha,
tanto ainda falta.
Curto viver,
aperta, a gravata.

Sigo errando,
estou por um fio,
se topo com o muro

me desalinho.

quinta-feira, 4 de junho de 2015

nave



Minha caixa
toráxica vagueia
no espaço.

O coração
fechado
nada sabe
em si
não cabe.

Lança-se às grades
do peito de aço,
pela liberdade
grita e clama.

Pobre músculo
palhaço,
logo se inflama
sofre e ama.

Busco outra sorte
fujo da morte
e ele em jogos de azar
no ciberespaço.

quarta-feira, 3 de junho de 2015

entre o tic e o tac


Futuro prematuro
presente surpresa
tempo instável
sujeito à pancadas de chuva
dilúvio
aluviando corações
corações relógios
TIC TAC
pontuando o tempo
qual o metro
esquecendo o silêncio,
o intervalo, o repouso,
o tudo
contando um dois três
fragmentos do nada
vida digital
animal racional
EGO EGO EGO EGO
TIC TAC TIC TAC
EGO-TIC
EGO-TAC
inconsciente
esquecido no silêncio
um tudo adormecido
AAAAAAAAAAHHHHHHH!
um Aborto da alma
em nome da vida
seguros de vida
paraísos pós a vida
mortes mortas
vidas perdidas
sorrisos para fotografia
um TIC
de felicidade
um TAC
de realização
e uma tristeza infinita.



Se a felicidade
existe inteira
é música.
Costurando com melodia
a vida sem nexo.
da bateria.

Se ela existe
é poesia
Enchendo de significado
palavras vazias.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

besteira


sempre
ela se chega
cerca.

evitá-la?
viver em negação?
fugir para onde?

pisar no freio
em vôo kamicaze?

ah, vida curta
que desembesta.

e a gente, besta
quando vê
nada mais resta.



domingo, 31 de maio de 2015

irmão do cadáver

Pessimismo
         Otimismo            
faces da mesma
moeda antiga
de valores perdidos
do mundo mesquinho
de mais-valias
              valem
                       nada-mais.

Quero
mundo livre
dessa competição babaca.
sempre dual
o Ocidente
esquece viver o um
e só há uma possibilidade
o caminho
ainda que desviado
no queijo suíço
dos descaminhos.
O desapego
nos olhos do cadáver
a falta de sentido
faz ver sentidos
profunda existência.

Somos irmãos
gente de verdade

família
humanidade.

sexta-feira, 29 de maio de 2015

artefato

pela paz
exercito
força maior
arte da guerra

manter a forma
suprir mantimentos
munição armamentos


juntar pessoas
informações
conhecimento

saber história

transparência
decodificada
por digital retina

sempre dois lados
para ir: frente ou trás

verdade que há
– hã!? –
não tombar

corrigir desvios
a  tempo


grande retorno
o caminho

cascudas ostras 
interiores em encontro
luminosa linha de dentes da paz

sinceridade
matéria do sublime
vocação de humilde
ser guerreiro

temer o mal mata
resta cair dentro
palavras atos
entendimento

brilho conjunto
hálito sorridente
desde o esôfago

onde se pudesse
haver escondido
o vestígio amargo
da doença.

quinta-feira, 28 de maio de 2015

lótus

o mundo insiste em fechar
todas saídas antes do fim.
a luz que brilha
sinais de recomeço
dissipa etérea
como veio.
tudo tão vago.
mais um dia que
não amanheço.
borbulho entre brumas
sobre a lama do pântano.
certeza do improvável
florir.

segunda-feira, 25 de maio de 2015

emaranhado



Se nos falamos, lemos, olhamos, tocamos,
nos ligamos nas muitas linhas do destino.
Pois não me lances queixas neste emaranhado,
procuro a ponta que vai dar no céu.

domingo, 24 de maio de 2015

epifania de domingo

a areia da praia está multicolorida
a grama mais verde para quem brinca
sedas reais colorem pobres na festa do divino
não há chefes, patrões ou reis
o crente se crê em passeio completo
o branco das saias rodadas gira nas giras
o couro come nos tambores
são todos sãos, todos brincantes
no dia do sagrado relax
o domingão é do boato
reunião dos irmãos
da família que há
do que dela resta
fora o silêncio dos que sofrem
a solidão no eco da televisão
no espelho do mundo anárquico
se mira um eterno dia de festa.

sábado, 23 de maio de 2015

pause



Uma pausa na metafísica,
que o tesão já incendiou o coração do poeta.

As palavras não têm mais sentido,
o sentido é a própria boca.

A língua é a língua,
o beijo, a linguagem.

Do you understand me? Beija-me.

sexta-feira, 22 de maio de 2015

vinho



A morte
faz o circo triste.

Pisadas, as uvas
resurgem em olor divino.
Brindo como baco:

sético
sátiro

santo.

quinta-feira, 21 de maio de 2015

linha vermelha


linha do equador
canal do panamá
túnel rebouças
cerca do condomínio.

faixa de gaza
linha vermelha
cerca de tijuana
mar mediterrâneo.

cidade alta e baixa
limite do gueto
na zona leste
ou em soweto.

planalto central
cidades satélites
mundo desigual
baixadas famélicas.



direitos humanos
para humanos direitos
à margem não há terapia
para nenhum de seus defeitos.

apartamento de luxo
de costas para a favela
do lado esquecido
não tem choro nem vela.

"abaixa a faixa penal! desce o pau"
sempre no pobre, no preto
para que desde cedo aprendam
a ficar para lá da linha
que separa o gueto.

quarta-feira, 20 de maio de 2015

dança d'areia


dança a areia
à música do vento
sinuosa em jatos constantes
lixando o vasto plano perfeito
perseguindo a maré vazante
gerando dunas em ondas
em vagoroso movimento itinerante
enquanto grãos ligeiros
espetam os pés a todo instante
apagando pegadas
lembrando que somos nômades
mônadas correntes escoam
pelo vazio deserto do tempo
porquanto sem fim ecoem
os uivos de novos ventos.

 

terça-feira, 19 de maio de 2015

marinha


Aves marinhas dançam ao azul vazio por sucessivos véus, sem gravidade, o ar em diferentes densidades de nuvens perpassa-lhes as penas, sopradas pelas térmicas que brotam d'areia quente, em voo livre, espreguiçam à rede da gentil brisa terral, que também lhes esculpe ondas em tubos cristalinos com a crista perfeita, planar, entre a terra, o mar e o astral, surfar com o riscar das pontas das asas, beliscando o tônus leve do salgado mar, como a pena desliza sobre o papel do poeta.
Sim, somos pássaros, improváveis, em vôos supersônicos, no sentido dos swells, pulsando por grandes ondas de revelações, ou tranquilos, pousando sobre ilhas de plásticos.
Nos fizemos profissionais do ar ao ponto de nos permitirmos amar lançando-nos à livre entrega de voar, em alongamentos quânticos, cânticos extra-românticos, uns aos outro, além-mar, estratosféricos, místicos, tântricos, yoguis da vida, esferas criando artes, artesanatos, delírios, acessando novas portas de percepção.
Tudo pode ser tão cool como um reggae jamaicano desembarcado de bravios cruzadores de mares a deitar junto às extensas e nuas costas maranhenses, ouvindo na fricção dos dedos com a pele morena, o roncar do tambor-onça. Ah, ilhas de amores, flechados por eros, somos mesmo assim, heroicos, cercado pelas águas turvas de argila azuziverde, donde não nos brilham reflexos narcísicos, mas cardumes de peixes, a festejar generosa prosperidade, sem estresse, sem tristeza de virar a cara para irmãos. até porque o sol tá quente, de rachar o cérebro, e abrir sentidos mais plenos.

segunda-feira, 18 de maio de 2015

ponto cruz

arte de avó | flor bordada na toalha | detalhes da mesa de domingo | cuidados de mariazinha | 
lembrança dos ausentes | festejo aos presentes | tempo de delicadezas | natureza morta | vivo florir

domingo, 17 de maio de 2015

luz da manhã

A boa luz
nos retorna o Caminho
e afasta não o escuro
– contraste necessário –
mas o que há obscuro
parasitas da nossa inércia.

Em boa hora
em dia propício
invoco a esta
para iluminar
a vida.

Amor (companheiros!)
filhos, crianças, adolescentes
irmãos, os dessa geração
pais e anciãos,
por todos esses
faça-se luz.

Oh, boa luz
desfaça as mazelas
desmanche os equívocos
valorize o justo,
desnude a falsa nobreza.

Branda luz,
nos dê energia para
uma grande missão.
desça-me um anjo,
eleve-nos, arcanjo,
vamos à escala seguinte
dessa existência mesquinha...

Luz da manhã,
Invoco o melhor de ti
que sejas o que já vi.

sábado, 16 de maio de 2015

margem blue

o medo
é sinal do apego
tudo pode se perder

tremer é a prova do passo
difícil andar sobre alturas
pouco chão sob o pé erguido a frente,
loucura? mais nada a perder
consigo, o essencial
a roupa do corpo
alimento da alma
e sim, o amor.

não há o que temer
lançar-se ao íntimo do ser
poeta ao mundo
ressurgir, renascer
a tragédia tem a origem
de todas as músicas
da forma que vem
no fluido devir
caminhar.

ao fundo, além
um rei bebê
toca um blues.

quem nasce negro
às margens do Mississipi,
São Francisco, Nilo, Tejo, Rio Negro
Igual ao rio
nunca se sabe o mesmo.

onde a música triste toca
a alma se reconforta na amplidão
tudo fica pequeno
nada mais a sofrer.